“Cibercultura – um comentário”

A cibercultura, resultado do boom que foi o crescimento do ciberespaço, é algo que teve a sua origem, segundo Lévy, P. (pág. 11), “Num movimento internacional de jovens ávidos para experimen­tar, coletivamente, formas de comunicação diferente”. Estes jovens colocaram a humanidade num rumo completamente diferente do qual não há retrocesso. Um novo caminho foi aberto, um mundo novo por explorar foi apresentado ao Ser Humano. Cabe a essa mesma humanidade explorar as suas potencialidades.

A cibercultura, segundo Pierre Lévy, assenta nos três princípios de criação do ciberespaço. A interconexão, princípio que se baseia no pressuposto de que, no ciberespaço, tudo deve estar ligado entre si. Cada computador, cada telefone, cada impressora, cada candeeiro, cada televisão deve ter um endereço na internet e estar interconectado, deve estar ligado à rede, “Este é o imperati­vo categórico da cibercultura. Se este programa se concretizar, o menor dos artefactos poderá receber informações de todos os outros e responder a eles, de preferência sem fio” Lévy, P. (Pág. 127). O segundo princípio defende que comunidades virtuais, como continuação da interconexão, devem ser criadas e baseadas nos interesses e conhecimentos recíprocos, a partir de projetos comuns, num processo constante de troca e cooperação. A reciprocidade deve ser a base onde assentam as comunidades virtuais. “E, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais” Lévy, P. (Pág. 127).

O terceiro princípio da criação do ciberespaço refere-se à inteligência coletiva. Com base no pressuposto do primeiro princípio, tudo está interconectado, e do segundo princípio, os grupos estão ligados, virtualmente, por interesses mútuos, surge uma inteligência coletiva, virtual, capaz de aprender e de inventar. “Cada um dentro nós torna-se uma espécie de neurónio de um mega cérebro planetário” Lévy, P. (Pág. 131).

A realidade cultural que emergiu como consequência do surgimento do ciberespaço e das alterações por si impostas, no comportamento humano, foram muitas e variadas. Vou referir as que, de momento, me surgem na memória.

O ciberativismo, um dos exemplos das mudanças sociais impostas pela cibercultura, é a alteração social em que a associação política ou de defesa da cidadania deixa de ser organizada, essencialmente, de forma estruturalista e vertical, através dos partidos políticos, sindicatos ou de outras associações com estrutura mais ou menos vertical e linear e com uma cadeia de comando definida e onde as pessoas, de modo geral, começam a organizar-se, com o intuito de defender os seus direitos, recorrendo ao ciberespaço e às suas ferramentas.

Estes indivíduos, os ciberativistas, já não necessitam de se deslocar a sedes ou outros locais físicos específicos para se reunirem, para trocar ideias, para se organizarem, para coordenar e decidir eventuais ações de luta. Esta nova geração de ativistas sociais comunica entre si e organiza-se recorrendo às redes sociais existentes na internet. Através desta nova forma de organização social, com o recurso às ferramentas disponíveis na internet, a mobilização é muito mais célere e acontecem taxas de replicação e engajamento até então nunca vistas.

As organizações resultantes desta nova forma de ativismo são tão poderosas e eficazes como as organizações convencionais até então conhecidas, conseguem transportar as manifestações da realidade virtual para as ruas, através de grandes mobilizações.

São exemplo do ciberativismo e do seu poder de mobilização social, através das redes sociais, os casos recentes de insurgência contra o poder instituído verificados nos países do Médio Oriente. O exemplo mais evidente, segundo a France Press (2011), verificou-se no Egito. Depois do presidente Hosni Mubarak, numa tentativa desesperada de conter a revolução, mandar bloquear a internet, os insurgentes começaram a comunicar e a organizar-se através do Twitter com uma aplicação para telefone e onde o resultado final foi a queda do regime.

Outro dos exemplos que vou utilizar para ilustrar a cibercultura e a consequente alteração do comportamento social são os Gadjets. Estes pequenos equipamentos eletrónicos, com as mais diversas funções e capacidades, em mutação e evolução constantes, provocam, em muitas pessoas, uma dependência em algo semelhante àquela sentida pelos toxicómanos. O sentimento é geral, todos querem ter o gadget mais recente, o mais potente, o mais rápido, aquele que tem mais funções, etc. É comum observarmos filas enormes de pessoas, em locais de venda destes equipamentos, nos momentos em que estas novidades são disponibilizadas. Vamos encontrá-las, com algum nervosismo e impaciência, aguardando a sua oportunidade de aquisição. É com admiração que constatamos que algumas dessas pessoas aguardam longos períodos de tempo, chegando mesmo a pernoitar no local.

O sentimento de estranheza e incompreensão ainda é maior quando verificamos que esses comportamentos não se verificam apenas com as camadas mais jovens da população nem com determinado grupo social. O extraordinário nesta alteração de comportamentos é a sua transversalidade a toda a sociedade.

Como terceiro exemplo de alterações comportamentais, como resultado da cibercultura, vou referir-me às Redes Sociais. São muitas, todas elas com várias e distintas caraterísticas, mas todas elas têm algo em comum. Permitem que as pessoas comuniquem e interajam umas com as outras, entre os pontos mais longínquos do globo, sem terem de sair do conforto e da segurança de suas casas, bastando para isso terem um computador e estarem ligadas à internet. Esta realidade, nova, provoca o surgimento de algo até então desconhecido, o amigo virtual. Existem, hoje, muitas pessoas que nutrem sentimentos de amizade por outras sem que para isso estivessem alguma vez juntas, presencialmente.

Nos tempos que antecederam as redes sociais, as amizades aconteciam através do contato efetivo e presencial entre as pessoas. Estas, para conviverem e estarem juntas, saiam de casa e socializavam nos mais diversos locais, tinham de se encontrar presencialmente. Ainda me recordo de quando era mais jovem e, todos os dias, depois do jantar, caminhar cerca de um quilómetro para me encontrar com os meus amigos no café da aldeia. Esses tempos mudaram, O contato presencial e físico deixou de ser tão importante, dando lugar a um contato intermediado por um computador. A cibercultura está, lentamente, a fazer mais uma alteração social. As relações de amizade entre as pessoas estão a tornar-se virtuais.

Damo-nos conta de um sentimento coletivo que auspicia o ciberespaço, a cibercultura resultante e a consequente sociedade em rede como o remédio da sociedade, o fim de todo o mal, a extinção de todas as guerras e a salvação da humanidade. Acredito que seja este o caminho, mas o homem ainda está muito longe do seu objetivo. Como refere Lévy, P. (Pág. 234). “Mas as potencialidades positivas da cibercultura, ainda que con­duzam a novas potências do humano, em nada garantem a paz ou a felicidade. Para que nos tornemos mais humanos é preciso suscitar a vigilância, pois o homem sozinho é inumano, na mesma medida de sua humanidade.”.

 

Referências:

France Press, Cairo (2011, Janeiro 28). Movimento antiMubarak teve início na internet. Folha de São Paulo. Retrieved from http://www1.folha.uol.com.br/mundo/867363-movimento-antimubarak-teve-inicio-na-internet.shtml

Lévy, P. (1999). Cibercultura. (1st ed.). São Paulo: Editora 34. Retrieved from  http://www.ebookseconcursos.com/2010/08/cibercultura-pierre-levy.html

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