A virtualização das relações sociais – a autenticidade e transparência na rede

O Homem é um ser social. Desde o início da sua existência que vive em grupos. É um ser incapaz de sobreviver, por muito tempo, só.

Devido à sua condição de incapacidade de sobrevivência sem a ajuda de outros, devido à sua condição de ser social, desde os tempos em que os primeiros hominídeos eram caçadores recolectores e viviam em bandos em busca de alimento que o homem se preocupa com a opinião que os seus pares têm sobre si. Nestes tempos, ser considerado indesejado pelos outros membros do grupo e a consequente expulsão da tribo, significava a morte do indivíduo.

Provavelmente teve origem nestes tempos, tornando-se uma caraterística psicológica evolutiva, o fato de o Homem ter uma preocupação constante em escamotear as caraterísticas próprias que autoconsidera negativas e tentar evidenciar as suas caraterísticas que ele pensa serem mais virtuosas.

Nos tempos anteriores à sociedade em rede, antes da realidade virtual, nas relações sociais convencionais, se é que pode chamar inconvencionais às relações que existem online, quem não fosse sincero ou fingisse ser alguém que não era na realidade, alguém que fosse dissimulado, era marginalizado pela sociedade.

Quando, com o surgimento da sociedade em rede e das relações sociais virtuais através da internet, surge a possibilidade de o individuo, por um lado, se apresentar aos outros como é verdadeiramente, despido de preconceitos, sem ter de se preocupar em ocultar o seu lado mais obscuro porque, como não é reconhecido, não terá de sofrer as consequências inerentes a essa obscuridade, por outro lado, o individuo tem a possibilidade de viver uma vida virtual, ilusória, que não tem possibilidade de viver fora da rede, pode ser alguém que ambiciona ser e não o é na realidade.

Associado à possibilidade de o individuo se poder apresentar, nas suas interações através da internet, com a persona que mais lhe convém na situação ou no momento, há que considerar que nas interações virtuais não existe o confronto, o cruzar de olhos, a linguagem gestual, incluindo nesta, a linguagem facial. Acontece ainda que, nas interações virtuais, o indivíduo quando questionado, não necessita responder imediatamente. Existe um período para pensar na resposta retirando, desta forma, toda a espontaneidade que possa existir na interação. A transparência, na rede, é fortemente debilitada devido à ausência de espontaneidade e de “frente-a-frente”. Perante isto, a credulidade pura e simples no outro que se nos apresenta na rede pode não ser a postura mais aconselhável. Serve como exemplo o episódio rocambolesco, vivido pelo trompetista Nadav Nirenberg, onde alguém começou a usar a sua identidade, depois de lhe ter sido roubado o telefone com acesso a um site de relacionamentos amorosos. O referido trompetista fez-se passar por mulher e, respondendo às mensagens colocadas pelo falsário, conseguiu recuperar o telefone.

A identidade com que cada pessoa se apresenta no meio virtual é o resultado da postura com que ela se apresenta na rede. Se a rede for utilizada como um prolongamento da relações sociais presenciais, como uma ferramenta para conseguir uma maior abrangência e chegar até mais pessoas e, ao mesmo tempo, as pessoas forem autênticas nessas interações sociais, a transparência da sua identidade está assegurada.

Cada um de nós, quando socializa presencialmente, faz uso de personas diferentes, conforme o contexto social onde está inserido. Em função de cada contexto social diferente, diferente é o papel social que representa. Essa caraterística do Ser Humano também se verifica na internet, está espelhada na rede quando verificamos que utilizamos sítios diferentes da rede em função do papel que aí queremos representar. Dando o meu caso como exemplo, quando quero socializar com amigos do dia-a-dia utilizo o facebook. Se quero relacionar-me num cariz mais profissional, faço-o através do LinkedIn. Quando me relaciono com os meus colegas estudantes, faço-o através da plataforma da universidade, mas, simultaneamente, para me relacionar com esses mesmos colegas de um modo mais pessoal e descontraído criei uma conta nova no facebook com esse fim específico. Relativamente ao que a possibilidade de assumir múltiplas identidades online provoca nas pessoas, Turkle, S. (1997), citada por Júlio, B. (2005, p. 14) refere que “sensações diversas de desconforto na fragmentação da sua identidade, sensações de alívio, possibilidades de autodescoberta ou até de autotransformação”.

Passando agora para o tema da validade da informação que se encontra na rede, nunca, como agora, foi tão fácil publicar informação. Qualquer pessoa, em qualquer momento, pode enviar para a rede todo o tipo de informação que desejar. Grande parte dessa informação, como é óbvio, não verdadeira ou é de credibilidade duvidosa.

Desde sempre a Informação era apenas acessível a alguns grupos de privilegiados, alguns grupos elitistas como o clero e a fidalguia, que faziam da posse do conhecimento uma das bases de sustentação da sua condição superior na sociedade. Mesmo em tempos mais recentes, tempos em que a informação já se encontrava acessível a todas as classes sociais, não era fácil aceder-lhe, esse conhecimento encontrava-se guardado em bibliotecas onde era necessário deslocarmo-nos ou em dispendiosos livros, se quiséssemos ser os seus proprietários.

O problema que hoje se coloca, diferentemente do que se colocava até ao surgimento da internet, prende-se com o excesso de informação. O “nevoeiro informacional” que falava Edgar Morin.

A internet, atualmente, é um imensurável repositório de informação. O problema deixou de estar relacionado com o acesso à informação e passou a ser – qual a informação credível? Quando alguém busca informação na internet tem de estar consciente de que necessita ser muito seletivo. Não pode aceitar como verdadeiro tudo o que encontra online. Várias são as técnicas utilizadas para ajudar a selecionar a informação. Refere-se, como exemplo, o procurar essa informação em repositórios de universidades, utilizar motores de busca específicos como o Google Académico ou o B-On, verificar quantas vezes a fonte já foi citada, partindo do princípio que quantas mais vezes a fonte foi citada, mais credível ela será. Mas, mesmo sendo meticuloso e precavido, o investigador corre o risco de se deparar com informação pouco credível ou mesmo falsa.

A facilidade com que se acede à informação na internet remete-nos para o problema do plágio, a fraude intelectual, ou como diz Oliveira M. (2007), “uma imitação ou cópia do trabalho do outro, é um apagamento de autoria que mostra concretamente o carácter dialógico da imagem e, consequentemente, a heterogeneidade como força construtiva do dizer”. Esta usurpação da propriedade intelectual é consequência do fácil acesso à informação. É um crime que sempre existiu, sempre foi praticado, mas agora, fruto da facilidade de acesso à informação, atinge proporções nunca antes vistas. Mas, ao mesmo tempo que é mais fácil fazer plágio, por outro lado, também é mais fácil detetá-lo, quer seja recorrendo a softwares vários, construídos com esse fim específico, quer utilizando um simples motor de busca como o Google.

As constantes infrações aos direitos de autor, praticadas na internet, têm levado a diversas tentativas, por parte de alguns países, de controlar a rede. É possível que os principais objetivos dos estados, ao tentar aplicar esse controlo, seja outro, mas a defesa dos direitos autorais é o argumento que utilizam. A proposta de lei SOPA (Stop Online Piracy Act) apresentada por Lamar S. Smith no Congresso Americano é um exemplo gritante dessa tentativa de domínio sobre a rede.

Cabe a todos nós, utilizadores da rede, através de uma utilização responsável, a manutenção de uma internet livre de domínio. Se permitirmos a existência de leis que controlem a rede, estamos a um passo de a ver transformar-se num imenso centro comercial dominado pelos grandes grupos financeiros ou, por outro lado, censurada pelos governos onde só teremos acesso à informação, por estes, autorizada.

Referências:

Júlio, B. (2005). Identidade e interacção social em comunicação mediada por computador. Universidade Nova de Lisboa, Lisboa. Retrieved from

http://www.bocc.ubi.pt/pag/julio-bruno-identidade-interaccao-social.pdf

Nirenberg, N. (2013, 01 02). Nirenberg Nadav, Brooklyn-based Trombonist, Sousaphonist, Bandleader, Composer, Arranger. Retrieved from

http://nadavnirenberg.blogspot.pt/

Oliveira, M. (2007). Plágio na constituição de autoria, Análise na produção acadêmica de resenhas e resumos publicados na internet, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. Retrieved from

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp059247.pdf

Wikipedia. (2013). Lamar S. Smith. Retrieved from

http://en.wikipedia.org/wiki/Lamar_S._Smith

Wikipedia. (2013). Stop Online Piracy Act. Retrieved from

http://en.wikipedia.org/wiki/Stop_Online_Piracy_Act

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Educação e sociedade em rede com as etiquetas , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s