“Os superficiais” de Nicholas Carr – Ensaio Crítico

  Psicologia da Comunicação Online

Ensaio crítico, relativo ao livro “Os superficiais – o que a internet está a fazer aos nossos cérebros” de Nicholas Carr, elaborado como trabalho final da Unidade Curricular “Psicologia da Comunicação Online”.

 Prólogo – “O Cão de guarda e o ladrão”

Na introdução ao seu livro, Nicholas Carr começa por advertir o leitor que não vai escrever sobre nada de novo. O tema que irá abordar já foi referido anteriormente por Marshall McLuhan no seu livro de “Understanding Media: The Extensions of Man”. Carr refere que McLuhan, já em 1964, advertia que tecnologias de então, tais como o telefone, o rádio, o cinema e a televisão estavam a invadir os nossos sentidos fazendo com que os bons hábitos de leitura estivessem a perder terreno. Relativamente à capacidade de distração dessas novas tecnologias, a discussão debatia-se em torno da capacidade dos conteúdos nos abstrair, ficando os meios tecnológicos que os difunde, isentos da discussão. Perante tão grande capacidade de nos entreter, esquecemo-nos que não são os conteúdos, mas sim as ferramentas que os transportam até nós, que estão a alterar o nosso modo de pensar. Carr, citando o crítico de cinema David Thomson, afirma que “as dúvidas podem tornar-se fracas face à certeza do meio.” Howard Rheingold, por seu lado, no seu livro Mind Amplifier, defende que não são as ferramentas tecnológicas que têm o poder de influenciar o ser humano. O modo como essas ferramentas são usadas é o mais importante. Afirma que “Não são apenas as ferramentas mentais que são importantes nas mudanças de direção civilizacionais. O saber usar essas ferramentas mentais é o que remodela o pensamento e muda o curso da história” (Rheingold, H. 2012, Pág. 5).

1 – Hal e Eu

O primeiro capítulo começa com a transcrição de um diálogo do filme 2001 – Odisseia no espaço de Stanley Kubrick. O Supercomputador Hal suplica a Dave, o último astronauta da nave espacial onde ambos se encontram, que pare de desligar os seus circuitos: “- Dave a minha memória está a desaparecer”.

Nicholas Carr auxilia-se desta metáfora para demonstrar que, também ele, se sente a perder a sua memória. Carr recorda como nos seus tempos de juventude conseguia ler um livro, do princípio ao fim, sem perder a concentração. Atualmente, o autor, apercebe-se que tem grandes dificuldades em se concentrar. Agora, quando se senta para ler um livro, é incapaz de ler uma página completa sem desviar os olhos do livro. Dá consigo a vaguear, frequentemente. Também tomou consciência que esta falta de concentração não se verifica só quando lê, também lhe acontece quando executa outras tarefas e também perdeu a capacidade, que tinha anteriormente, de se lembrar das coisas. Esta perda de capacidades não se verifica apenas com Carr, muitas outras pessoas estão experienciando o mesmo.

Com o surgimento da internet, com os seus pequenos textos interligados entre si, os quais nós vamos passando de página em página, a maior parte das vezes sem ler todo o seu conteúdo, absorvendo só o que consideramos importante, surgiu também uma nova forma de o nosso cérebro recolher e absorver informação.

“Como McLuhan sugeriu, os media não são apenas canais de informação. Fornecem algo para pensar, mas também modificam o processo de pensar. E o que a internet parece estar a fazer é desbastar a minha capacidade de concentração e contemplação. Agora, quer me encontre online ou não, minha mente espera receber informações do modo como a rede a distribui: um fluxo veloz de partículas. Outrora fui um mergulhador num mar de palavras. Hoje passo deslizando sobre a superfície como alguém numa moto aquática”.(Carr, N. 2012, pag.19). Rheingold também reconhece que existe uma apreensão generalizada sobre a dependência que as tecnologias de informação e comunicação nos podem provocar, admite que estas podem entorpecer as nossas mentes e as nossas emoções tornando-nos, a nós e à nossa cultura, superficiais. Mas, em vez de tomar uma posição contrária às tecnologias de informação e comunicação, Rheingold propõe que “em vez de perguntarmos se a Web e os vários dispositivos que nos ligam a ela estão a tornar-nos mais estúpidos, porque não projetamos e construímos dispositivos digitais, de forma consciente, que nos tornem mais inteligentes?” (Rheingold, H. 2012, Pág. 4).

2 – Caminhos Vitais

O capítulo 2 dedica-se à investigação e à perceção que existiu, sobre o funcionamento do cérebro, ao longo da história. Atualmente, com descoberta da plasticidade do cérebro, temos conhecimento que este está em constante mutação como consequência de todas as experiências pelas quais o indivíduo passa, que uma das causas com maior poder para alterar o cérebro de um indivíduo são os seus próprios pensamentos e que estas alterações são fortemente influenciadas pelas novas tecnologias.

A descoberta das caraterísticas plásticas do cérebro teve grandes implicações a vários níveis, entre eles o filosófico. Com esta descoberta foi estabelecido um ponto de contato entre o empirismo e o racionalismo. Enquanto o empirismo advogava que o conhecimento era adquirido apenas através da experiência, sendo os indivíduos produtos puramente culturais, o racionalismo advogava a natureza determinística do conhecimento, estando este já pré-programado no cérebro humano. A descoberta da plasticidade do cérebro, juntamente com os avanços na genética, tem demonstrado que, neste aspeto, existe uma complementaridade entre estas duas filosofias. Marc Prensky (2001) afirma que “pesquisas feitas por psicólogos sociais demonstraram que pessoas que cresceram em culturas diferentes, não pensam apenas em coisas diferentes, essas pessoas pensam realmente de forma diferente. O meio ambiente e a cultura em que essas pessoas são socializadas afeta e determina muitos dos seus processos mentais.

As crianças aprendem a falar da mesma forma que um pássaro aprende a voar, são caraterísticas inatas. A leitura e a escrita estão tão enraizadas na nossa identidade cultural que facilmente as consideramos inatas. Mas estas duas aptidões não são inatas, são aprendidas. São aptidões que só foram possíveis no Homem devido ao à descoberta do alfabeto. O nosso cérebro tem de aprender a traduzir os caracteres simbólicos que observamos na linguagem escrita. A leitura e escrita exigem uma aprendizagem e prática por parte do cérebro e têm como consequência uma moldagem específica do mesmo.

3 – Ferramentas da Mente

Neste capítulo Nicholas Carr faz referência a várias invenções humanas. Algumas delas, tais como a cartografia e o relógio têm uma importância acrescida, ele chama-as de “tecnologias intelectuais”. São tecnologias que foram criadas com o objetivo de expandir as nossas capacidades mentais. São tecnologias que exercem uma grande influência sobre o que, e de que modo, pensamos.

Entre todas as “tecnologias intelectuais”, o alfabeto foi, provavelmente, a invenção que mais alterou o nosso modo de pensar. O alfabeto fonético inventado pelos gregos em 750 A.C. era um sistema eficiente e completo para a escrita e para a leitura. Recorrendo a este alfabeto, o esforço mental, para ler e para escrever, era muito menor do que o esforço que era necessário despender para ler os símbolos pictóricos da anterior escrita cuneiforme. Foi o alfabeto fonético grego que permitiu que a transferência cultural deixasse de ser oral e passasse a ser escrita. Devido ao facto de o homem passar a ter a possibilidade de guardar as suas memórias em suportes como o papel ou o papiro, foi libertado da obrigação de ter de memorizar grandes quantidades de informação, disponibilizando grande parte das suas capacidades cerebrais para outros fins. A palavra escrita libertou o conhecimento das limitações da memória individual, abrindo a mente a novas fronteiras do pensamento e da expressão. Este ponto de viragem na história humana não foi pacífico. Correntes mais tradicionalistas oponham-se a esta nova forma de transmissão de conhecimento, afirmando que, recorrendo à tradição escrita, o Homem iria tornar-se num pensador superficial.

Rheingold afirma que “Com a escrita veio leitura, uma reprogramação forçada dos jovens cérebros para reconhecer, extrair e construir significado a partir de um pequeno conjunto de símbolos visuais. Com a leitura vieram as primeiras escolas, onde reprogramámos os jovens da nossa espécie, ensinando-lhe alfabetos e gramáticas.”

Citando Maryanne Wolf (2007), Rheingold diz que “A simbolização, portanto, mesmo para o sinal gráfico mais minúsculo, explora e expande duas das características mais importantes do cérebro humano – a nossa capacidade de especialização e a nossa capacidade de fazer novas conexões entre áreas de associação.” (Rheingold, H. 2012, Pág. 15).

4 – A Página do Aprofundamento

No capítulo quatro o autor refere que os primeiros livros eram de difícil leitura. Os textos eram contínuos, sem separação de palavras e sem regras gramaticais, utilizava-se a ”scriptura continua”. Este modo de escrita dificultava a sua perceção, obrigando o leitor a um trabalho cognitivo lento e intenso. Com a expansão da cultura escrita, os escritores começaram a implementar espaços entre as palavras e sinais gráficos nos textos. Ler esta nova forma de escrita teve que ser aprendida, requerendo mudanças complexas nos circuitos do cérebro mas que permitiu aliviar a pressão cognitiva envolvida em decifrar o texto, tornando possível que este fosse lido de forma mais rápida, silenciosamente e possibilitando uma maior compreensão. Esta nova forma de escrita não só tornou os leitores mais eficientes mas também mais atentos. Novos vocábulos foram surgindo representando, muitos deles, conceitos abstratos que, anteriormente, não eram passiveis de serem representados por apenas uma palavra. Carr afirma que, como resultado do surgimento das novas ferramentas tecnológicas e dos conteúdos por elas distribuído, “Agora a corrente dominante está sendo desviada, rápida e decisivamente, para um novo canal. A revolução eletrónica está a aproximar-se do seu auge à medida que o computador – pessoal, portátil ou de bolso – se torna o nosso companheiro constante e a internet se torna o nosso meio preferido de armazenar, processar e partilhar informação em todos os formatos, incluindo texto. … Mas o mundo do ecrã, como começamos a compreender, é um mundo muito diferente do mundo da página. Uma nova ética intelectual está a tomar o poder. Os caminhos nos nossos cérebros estão mais uma vez a ser redesenhados.”.(Carr, N. 2012, pag.101). Rheingold, numa perspetiva mais confiante e otimista, diz que “Cada vez mais estudos empíricos são feitos em torno do modo como a nossa utilização dos média remodela os nossos cérebros… grandes pesquisas literárias têm prosperado em torno de trabalho cooperativo mediado por computador, de relações entre homem-computador e de média colaborativa… Juntando o que se sabe agora sobre os seres humanos, computadores e meios de comunicação, para que direção quereríamos nós que a extensão-da-mente seguisse, se tivéssemos qualquer palavra a dizer?” (Rheingold, H. 2012, Pág. 26).

5 – Um Meio de Natureza Muito Geral

No capítulo 5, Carr refere que o computador, associado à expansão da internet, está a expandir-se e a retirar protagonismo a todas as outras tecnologias. A rede, composta por milhões de computadores interligados entre si e pela informação que estes armazenam e partilham, transformou-se numa máquina gigantesca, à escala global, que está a tomar o lugar de todas as outras tecnologias intelectuais. Cada vez mais, o nosso computador pessoal, ligado à rede, transformou-se na nossa máquina de escrever, no nosso mapa, no nosso relógio, na nossa calculadora, no nosso telefone, no nosso correio, na nossa biblioteca, na nossa rádio e na nossa televisão. Estamos dependentes da rede, cada vez mais, para todas as nossas tarefas do nosso dia-a-dia.

O incremento da internet e a propagação dos textos aí colocados tem levado as pessoas a lerem mais, mas o tempo que as pessoas passam a ler materiais impressos é cada vez menor.

A quantidade de utilizadores da internet tende a ser cada vez maior. Como resultado da sua abrangência e do seu fácil acesso, esta tende, simultaneamente, a ser parte integrante das nossas vidas. Perante a sua interatividade, a sua capacidade de pesquisa, o seu vasto volume de informação e os seus conteúdos multimédia, é impossível não nos sentirmos atraídos pela internet. As próprias bibliotecas são o espelho do domínio da informação digital depositada na rede sobre os materiais impressos. No seu interior, antigamente, predominava o silêncio e as pessoas estavam ler livros, hoje encontramo-las a navegar na internet. Como afirma o autor “a disposição da biblioteca também fornece um poderoso símbolo da nossa paisagem mediática: no centro está o ecrã do computador ligado à internet; a palavra impressa foi relegada para as margens.”(Carr, N. 2012, pag.126).

6 – A Própria Imagem do Livro

O capítulo seis começa referindo as dificuldades por que o livro impresso está a passar, resultantes da sua progressiva substituição por literatura digital. A escrita, quando surgiu, não substituiu completamente a oralidade. Da mesma forma, o livro tem resistido à supremacia da internet, mas até quando? O livro impresso continua a possuir caraterísticas como a rusticidade, a portabilidade, a desnecessidade de energia e a dispensabilidade de condições específicas de luminosidade, que o ecrã ainda não conseguiu superar. Mas, paulatinamente, os avanços tecnológicos estão a conseguir ultrapassar as particularidades que ainda faziam despertar interesse pelos livros.

Surgiram no mercado leitores de texto digitais, com ligação à internet, muito práticos, de fácil transporte, com a capacidade de armazenarem milhares de obras literárias e que têm a particularidade de terem as palavras transformadas em hipertexto que remete para a wikipédia, para um motor de busca ou para um dicionário. Com a introdução do hipertexto e dos conteúdos a ele ligados, estes livros eletrónicos passaram a ter as caraterísticas da internet com todos os fatores de distração a ela associados. Perante este tipo de equipamento, a leitura perde a linearidade, a calma e a atenção que segurava o leitor. O imediatismo invalida o tempo de concentração necessário à leitura profunda. O modo como lemos um livro eletrónico é muito diferente do modo como lemos o livro impresso e esta diferença irá repercutir-se na forma como iremos escrever. Perante esta nova forma de apresentação dos textos, estes perdem a intemporalidade e os autores vão descurar a busca da perfeição. O imediatismo e a informalidade dos textos dispostos online provocaram um decréscimo de expressividade e uma diminuição da eloquência.

Como refere Watson, R. “Ler no ecrã de um computador é rápido e adequado à obtenção de fatos. Em contraste, a leitura em papel é reflexiva e mais adequado à tentativa de compreender um argumento ou conceito.” e “O pensamento profundo … não pode ser conseguido com pressa ou num ambiente cheio de interrupções ou hiperlinks. Não pode ser conseguido através de 140 caracteres. Não pode ser conseguido na desordem da multitarefa.” (Watson, 2010, pág.3).

7 – O Cérebro do Malabarista

Este capítulo é dedicado ao efeito distrativo que a internet tem sobre o cérebro. Quando nos encontramos na rede, devido aos seus estímulos sensoriais e cognitivos, a nossa leitura torna-se descuidada, o nosso pensamento torna-se distraído e apressado e a nossa aprendizagem torna-se superficial. A internet disponibiliza-nos uma série de recompensas, que nos são apresentadas a grande velocidade, controlando toda a nossa atenção. Como contradição, depois de conquistar a nossa atenção, dispersa-a com os estímulos mais variados. Nós aceitamos a falta de concentração e de focalização, consentimos a divisão da nossa atenção e a fragmentação dos nossos pensamentos, em troca da abundância de informação empolgante ou, pelo menos, divertida.

Hamilton, J. referindo-se a uma investigação de Etienne Koechlin diz que “ Ofereceram recompensas às pessoas para fazer três coisas ao mesmo tempo. E quando as pessoas começaram a terceira tarefa, um dos objetivos iniciais desapareceu de seus cérebros – disse Koechlin. As pessoas também abrandaram e fizeram muitos mais erros.” (Hamilton, J. 2010). Mas por outro lado Rheingold, H. afirma que “A informação digital tem demonstrado seu potencial para levar à distração, desumanização e ilusão. Por outro lado, essas mesmas tecnologias também possibilitam o pensamento avançado, a descoberta de novos conhecimentos, colaboração e cooperação em escalas sem precedentes.” (Rheingold, H.  2012, Pág. 39).

8- A Igreja Google

Este capítulo inicia-se com uma explanação sobre o taylorismo e de como o sistema ainda está presente entre nós, continua a ser um dos fundamentos da indústria manufaturada. O modelo, antes aplicado ao trabalho manual, também se aplica à internet, uma máquina constantemente melhorada no sentido de conseguir uma, cada vez mais rápida e precisa, busca, transmissão e manipulação de informação através da sistematização e quantificação dos dados. Como consequência da influência que a internet exerce sobre nós, o modelo de Taylor também está a gerir o reino do pensamento. O autor acusa a empresa Google de ser uma das principais causas desse fenómeno. Afirma que “a empresa realiza milhares de experiências por dia e usa os resultados para refinar os algoritmos, que guiam o modo como encontramos informação e retiramos significado dela. Aquilo que Taylor fez para o trabalho manual, a Google está a fazer para o trabalho mental.” e “de acordo com a visão da Google, a informação é uma espécie de mercadoria, um recurso utilitário que pode, e deve, ser extraído e processado com eficiência industrial”. (Carr, N. 2012, pag.189,191).

Outra crítica que Carr faz à empresa Google relaciona-se com a sua tentativa de digitalizar todos os livros e colocá-los online. Além das críticas à perspetiva economicista da iniciativa, o autor afirma que “para tornar um livro possível de ser descoberto e pesquisado online é necessário desmembrá-lo. Sacrifica-se a coesão do seu texto, a linearidade do seu argumento ou narrativa, tal como flui ao longo das suas páginas… Sacrifica-se também o silêncio que foi «parte do sentido» do códex.” (Carr, N. 2012, pag.206).

9 –  Procura, memória

No capítulo nove, Carr analisa o conhecimento que existe sobre a nossa memória e critica a influência negativa que a internet está exercendo sobre a nossa capacidade de guardar conhecimento. Pelo efeito que tem sobre a memória, a internet é uma tecnologia do esquecimento” deixa dormentes a memória, a imaginação e a criatividade. “As memórias de curto prazo não se tornam memórias a longo prazo imediatamente, e o processo da sua consolidação é delicado. Qualquer perturbação, quer um murro na cabeça ou uma simples distração, pode varrer as memórias nascentes da mente. Estudos subsequentes confirmaram a existência de memórias a curto prazo e memórias a longo prazo, e proporcionaram provas adicionais da importância da fase de consolidação durante a quais as primeiras se transformaram nas últimas.” (Carr, N. 2012, pag.228-229). O que marca a diferença entre o que vamos lembrar e o que vamos esquecer é a atenção que vamos disponibilizar no processo de aquisição. Quando estamos online a nossa memória de curto prazo é sobrecarregada, tornando a nossa concentração mais difícil. A internet dispersa a nossa atenção e como consequência, as aprendizagens que fazemos e a informação que absorvemos online, é esquecida. Kobi Rosenblum, citado por Carr, afirma que “Enquanto que um cérebro artificial absorve informação e imediatamente a guarda na sua memória, o cérebro humano continua a processar a informação muito tempo depois de a ter recebido, e a qualidade das memórias depende de como a informação é processada. A memória biológica está viva. A memória de computador não está.” (Carr, N. 2012, pag.237).

10 – Uma coisa igual a mim

No capítulo 10, Carr começa por descrever o programa Eliza, desenvolvido por Joseph Weizenbaum e da reação negativa que este teve quando começaram a usar o programa indevidamente, querendo dar-lhe qualidades humanas. Ao demonstrar o seu descontentamento através do seu livro “Computer Power and Human Reason” (1976), Weizenbaum foi marginalizado pela comunidade científica ligada à computação, especialmente por quem fazia pesquisas em inteligência artificial.

Para o autor, existem muitas pessoas a defender os benefícios da internet sobre as nossas mentes e existem muitas outras que gostariam também de acreditar nesses benefícios. Entre essas vozes encontra-se a de Howard Rheingold que, citando Robert Logan, afirma que “A utilização de computadores para resolver problemas humanos através da mediação de linguagens simbólicas tornou-se a “quinta língua”, segundo Logan, juntamente com a fala, o alfabeto, a matemática, as ciências e a impressão. O uso dos meios de comunicação baseados na Internet, na visão de Logan, é a sexta língua.” (Rheingold, H. 2012, Pág. 30). Mas Carr alerta-nos para o fato de que não nos podemos esquecer do reverso da medalha relativamente aos avanços tecnológicos. Existe uma grande competição, entre empresas produtoras de software, para criar programas que executem as nossas tarefas mentais, programas que nos libertem do esforço de pensar e que pensem por nós. Não nos podemos esquecer que “Em alguns casos a alienação é precisamente o que confere valor à ferramenta. Nós construímos casas e fabricamos blusões de penas porque queremos ser alienados do vento da chuva e do frio.” (Carr, N. 2012, pag.260) e que quando criamos ferramentas que pensem por nós ficamos mais propensos a diminuir a nossa capacidade cerebral, subtilmente, sem nos apercebermos disso. “Quando um trabalhador, para abrir uma vala, troca a sua pá por uma retroescavadora, os músculos dos seus braços ficam mais fracos, apesar de a sua eficiência aumentar. Uma troca semelhante pode muito bem ter lugar quando automatizamos o trabalho da mente.” (Carr, N. 2012, pag.265-266).

Epílogo, “Elementos Humanos” e Posfácio

O autor, no final do livro, reforça a ideia de que a Internet alterou e reduziu a sua capacidade de concentração e refere que não é um problema pessoal, muitos outros autores reconhecem que sentem os mesmos sintomas. Também afirma que este problema não é referente apenas aos jovens, aplica-se a toda a todas as faixas etárias, “A Cultura da internet não é a cultura da juventude; é a cultura dominante.” (Carr, N. 2012, pag.279). Embora seja difícil de combater a atração que a internet exerce sobre nós, Carr reconhece que já começam a surgir alguns mecanismos de defesa e termina o seu livro fazendo um apelo à manutenção da lucidez, da reflexão e do espírito crítico sobre como a internet está a transformar o nosso cérebro, memória, atenção e pensamento. Conclui convidando-nos a juntarmo-nos a ele nesta viagem contra a corrente.

Na outra extremidade do continuum, muito mais otimista em relação à internet e às novas “ferramentas da mente”, encontra-se Howard Rheingold. Este afirma que Metacognição, abstração, cognição social aumentada, inteligência coletiva e colaboração estigmérgica – todas grandes ideias e todas apresentadas como prováveis ​​entradas para o desenho da extensão-da-mente. Não são uma lista exaustiva de formas que, em si, nos vão fornecer as melhores ferramentas, mas são métodos e ideias que podem ajudar as pessoas a resolver problemas em conjunto, utilizando ferramentas digitais. São um começo… Confrontados com a ameaça de alterações ambientais graves, os nossos antepassados ​​inventaram a linguagem e a escrita. Parece evidente que enfrentamos novamente um ponto de inflexão na história da nossa espécie onde melhores ferramentas podem fazer a diferença entre o avanço e a extinção. É hora de projetar as nossas ferramentas digitais mais conscientemente. Elas são e podem vir a ser incríveis solucionadoras de problemas. E, sendo assim, mudanças incríveis aguardam.” (Rheingold, H. 2012, Pág. 42). Julgo que o que está para vir não será tão negro como profetiza Nicholas Carr nem partilho do otimismo exacerbado de Howard Rheingold. Estamos perante um ponto de viragem na história da humanidade, mas, como sempre, o Homem seguirá em frente com todos os defeitos e virtudes inerentes à sua condição.

O que está para vir? O futuro o dirá!

Referências:

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